Se todo o software livre sumisse amanhã, boa parte do mundo digital pararia junto. Servidores de bancos, serviços de nuvem, sites de governo, roteadores, TVs e a maioria dos celulares dependem dele em alguma camada. Desde novembro de 2017, todos os 500 supercomputadores mais rápidos do planeta rodam Linux[1]. Um relatório da Synopsys que auditou mais de mil bases de código comerciais encontrou componentes de código aberto em 96% delas[2]. E pesquisadores da Harvard Business School estimaram que, se as empresas precisassem recriar do zero o software livre que usam, o custo chegaria a cerca de 8,8 trilhões de dólares, e elas gastariam 3,5 vezes mais com software do que gastam hoje[3].
Essa história começa em 27 de setembro de 1983, quando Richard Stallman, então pesquisador do MIT, publicou numa lista de discussão o anúncio de um projeto chamado GNU[4]. A ideia era construir um sistema operacional inteiro, compatível com o Unix (que era proprietário), e que qualquer pessoa pudesse usar, estudar e modificar. Dois anos depois ele publicou o Manifesto GNU, explicando as razões políticas e éticas do projeto[5]. Ao longo dos anos 80, o GNU produziu peças que usamos até hoje, como o compilador GCC, o editor Emacs e o shell Bash. Faltava o kernel, o núcleo que conversa com o hardware. O kernel oficial do projeto, o Hurd, nunca chegou a ficar pronto para uso amplo.
Em 25 de agosto de 1991, um estudante finlandês de 21 anos chamado Linus Torvalds postou num fórum da Usenet que estava escrevendo um sistema operacional “só por hobby, não vai ser grande e profissional como o GNU”[6]. Ele publicou o código, gente de vários países começou a mandar correções e, em 1992, o Linux passou a ser distribuído sob a GPL, a licença criada pelo próprio GNU. Juntando as ferramentas GNU com o kernel de Linus, finalmente existia um sistema operacional completo e livre. Torvalds conta essa trajetória no livro Just for Fun, escrito com o jornalista David Diamond[7]. O hobby virou um dos maiores projetos colaborativos já feitos.
O que torna um software livre
Não tem a ver com preço. A Free Software Foundation, fundada por Stallman em 1985, define software livre como aquele que garante quatro liberdades a quem usa: executar o programa para qualquer propósito, estudar como ele funciona e adaptá-lo (o que exige acesso ao código-fonte), redistribuir cópias e distribuir versões modificadas[8].
Em 1998 surgiu o termo “código aberto” (open source), com a criação da Open Source Initiative. Os programas são praticamente os mesmos, mas o discurso muda: o movimento do software livre fala de liberdade e ética, enquanto o open source vendia para as empresas a eficiência do modelo colaborativo. Stallman até hoje critica o termo por deixar a questão da liberdade de lado.
Como um projeto funciona na prática
Em 1997, Eric S. Raymond escreveu um ensaio que virou referência, A Catedral e o Bazar[9]. Ele comparava dois jeitos de fazer software: o da catedral, em que um grupo fechado trabalha em silêncio e só entrega versões prontas, e o do bazar, inspirado no Linux, em que o código é publicado cedo e muitas vezes e qualquer um pode palpitar. Foi nesse texto que ele cunhou a “Lei de Linus”: com olhos suficientes, todo bug é trivial.
Hoje o bazar costuma morar em plataformas como GitHub, GitLab ou Codeberg. Alguém encontra um problema e abre uma issue. Outra pessoa faz um fork, escreve a correção e envia um pull request (ou merge request, no GitLab). Os mantenedores revisam, pedem ajustes, discutem e decidem se aquilo entra. A licença define as regras do jogo: a GPL exige que versões derivadas continuem livres, enquanto licenças como MIT e Apache permitem até que o código seja usado dentro de produtos fechados.
A governança varia muito. Tem projeto que é uma pessoa só respondendo issues de madrugada, e tem projeto como o próprio Linux, Python ou Kubernetes, com comitês, processos formais de decisão e fundações pagando parte das contas.
A comunidade (e quem paga a conta)
Uma pergunta que economistas se fizeram cedo foi: por que alguém trabalha de graça? Josh Lerner e Jean Tirole argumentaram em 2002 que existe um cálculo racional por trás disso, como ganhar reputação, aprender e sinalizar competência para o mercado de trabalho[10]. No mesmo ano, Yochai Benkler, professor de Direito em Harvard, descreveu o fenômeno como “produção entre pares baseada em bens comuns”, um terceiro modelo de organização, que não é nem empresa nem mercado[11].
No Brasil, o tema ganhou força nos anos 2000. O Fórum Internacional Software Livre (FISL), realizado em Porto Alegre a partir de 2000, se tornou um dos maiores eventos do tipo no mundo, e o governo federal chegou a adotar políticas de migração para software livre. O sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, um dos articuladores dessa política, discute o assunto em Software livre: a luta pela liberdade do conhecimento[12].
Mas a comunidade tem um lado frágil. Em 2014 veio a público o Heartbleed, uma falha grave no OpenSSL, biblioteca de criptografia usada por boa parte dos servidores web. O bug estava lá havia cerca de dois anos. Depois do caso, descobriu-se que o projeto recebia algo como 2 mil dólares por ano em doações e tinha apenas um desenvolvedor dedicado em tempo integral[13]. Nadia Eghbal documentou esse problema no relatório Roads and Bridges, financiado pela Ford Foundation, comparando o software livre a estradas e pontes que todo mundo usa e quase ninguém mantém[14].
Em março de 2024, outro episódio mostrou os dois lados da moeda. O engenheiro Andres Freund percebeu que logins via SSH estavam meio segundo mais lentos do que deveriam e, puxando esse fio, descobriu um backdoor escondido no xz, uma ferramenta de compressão presente em quase toda distribuição Linux[15]. O invasor tinha passado cerca de dois anos ganhando a confiança do único mantenedor do projeto até conseguir permissão para publicar versões. O ataque só foi pego porque o código era aberto e alguém estava olhando.
Por que vale a pena usar um aplicativo livre
A primeira vantagem é a transparência. Dá para verificar o que o programa faz, e isso torna muito mais difícil esconder coleta abusiva de dados ou funções ocultas. Isso se conecta à privacidade: aplicativos livres raramente se sustentam vendendo dados ou publicidade.
A segurança também costuma sair ganhando, com um asterisco. O caso do xz mostra que a auditoria pública funciona. O Heartbleed mostra que ela só funciona quando alguém de fato audita. Código aberto permite a revisão, mas não a garante.
Outra vantagem é não ficar refém de uma empresa. Se quem mantém o projeto desiste dele ou toma uma decisão ruim, a comunidade pode seguir por conta própria. Foi o que aconteceu em 2010, quando a Oracle comprou a Sun e parte dos desenvolvedores do OpenOffice saiu para criar o LibreOffice.
Tem ainda a liberdade de adaptar o programa ao que você precisa, o custo geralmente menor (o que pesa muito para escolas, prefeituras e pequenas empresas) e o uso de formatos abertos, que evita que seus arquivos fiquem presos a um programa que pode deixar de existir daqui a dez anos.
Por fim, o código aberto é material de estudo. Muita gente aprendeu a programar lendo código de projetos maduros e recebendo revisão de desenvolvedores experientes do mundo todo. E quem usa pode retribuir: reportando bugs, traduzindo, escrevendo documentação ou doando para os projetos dos quais depende.
Referências
[1] TOP500. Operating System Family / Linux. Estatísticas das listas a partir de novembro de 2017. Disponível em: top500.org.
[2] SYNOPSYS. Open Source Security and Risk Analysis Report (OSSRA). 2024.
[3] HOFFMANN, M.; NAGLE, F.; ZHOU, Y. The Value of Open Source Software. Harvard Business School Working Paper, n. 24-038, 2024.
[4] STALLMAN, R. Initial Announcement. Lista net.unix-wizards, 27 set. 1983. Disponível em: gnu.org/gnu/initial-announcement.html.
[5] STALLMAN, R. The GNU Manifesto. Dr. Dobb’s Journal, mar. 1985.
[6] TORVALDS, L. What would you like to see most in minix? Grupo comp.os.minix, Usenet, 25 ago. 1991.
[7] TORVALDS, L.; DIAMOND, D. Just for Fun: The Story of an Accidental Revolutionary. New York: HarperBusiness, 2001.
[8] FREE SOFTWARE FOUNDATION. O que é o software livre? Disponível em: gnu.org/philosophy/free-sw.pt-br.html.
[9] RAYMOND, E. S. The Cathedral and the Bazaar. Sebastopol: O’Reilly, 1999.
[10] LERNER, J.; TIROLE, J. Some Simple Economics of Open Source. The Journal of Industrial Economics, v. 50, n. 2, p. 197-234, 2002.
[11] BENKLER, Y. Coase’s Penguin, or, Linux and The Nature of the Firm. Yale Law Journal, v. 112, n. 3, p. 369-446, 2002.
[12] SILVEIRA, S. A. Software livre: a luta pela liberdade do conhecimento. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
[13] CODENOMICON. The Heartbleed Bug. 2014. Disponível em: heartbleed.com. Sobre o financiamento do OpenSSL, ver a cobertura da imprensa em abril de 2014 e o relatório de Eghbal [14].
[14] EGHBAL, N. Roads and Bridges: The Unseen Labor Behind Our Digital Infrastructure. Ford Foundation, 2016.
[15] FREUND, A. backdoor in upstream xz/liblzma leading to ssh server compromise. Lista oss-security, 29 mar. 2024. Ver também CVE-2024-3094.

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